Por volta do primeiro ano de vida, as crianças já costumam ser capazes de articular uma ou outra palavra, normalmente relacionada ao contexto em que vivem. Mamãe, papai, au-au, água e outros vocábulos simples passam a fazer parte de seu pequeno repertório. A habilidade de se comunicar, no entanto, é desenvolvida pelas pessoas ao longo de toda a vida. Isso porque uma boa comunicação depende de uma série de fatores, como tempo, ambiente e grupo social. E isso não é diferente em conversas com crianças e adolescentes.
Comunicar-se com eles pode ser um desafio constante para pais, professores e cuidadores. Isso porque, mais do que transmitir informações, é necessário criar um ambiente de diálogo, no qual eles sintam que são ouvidos e compreendidos. Especialistas em educação afirmam que a forma como nos comunicamos pode influenciar diretamente o desenvolvimento emocional, social e cognitivo de crianças e adolescentes. Algumas dicas, no entanto, facilitam muito esse caminho para interação e tornam as conversas do dia a dia em casa e na escola muito mais fluidas e bem menos combativas.
De acordo com a gerente editorial da Aprende Brasil Educação, Cristina Kerscher, “a comunicação eficaz com crianças e adolescentes começa com a escuta ativa. É fundamental que eles percebam que suas opiniões são valorizadas e que existe espaço seguro para fazerem questionamentos e expressarem sentimentos, dúvidas e preocupações. Vale destacar que esse diálogo é essencial para o desenvolvimento emocional, ajudando-os a reconhecer, compreender e regular suas próprias emoções”.
A postura autoritária, de “detentor da verdade”, muitas vezes assumida pelos adultos na comunicação com crianças e adolescentes, prejudica a construção de um diálogo mais aberto e participativo. “Quando apenas falamos e esperamos obediência, criamos barreiras de entendimento, porque o primeiro instinto de todos nós, seres humanos, é o confronto às normas estabelecidas. Explicar os motivos por trás das regras, fazer perguntas abertas e incentivar a criança ou o adolescente a compartilhar seu ponto de vista não apenas favorece a comunicação, mas também o desenvolvimento de competências socioemocionais, como empatia, autoconfiança e autocontrole”, explica.
Adaptar a linguagem é indispensável
Assim como acontece em contextos profissionais, em que o uso de algumas expressões populares, por exemplo, não é adequado, é preciso modular o discurso ao se relacionar com os pequenos. O uso de uma linguagem adequada é essencial e a adaptação precisa ser feita de acordo com a faixa etária da criança, buscando termos e exemplos que dialoguem com o universo conhecido por ela. Termos muito técnicos ou frases longas podem gerar confusão, especialmente entre crianças menores. Para adolescentes, é importante manter o respeito e evitar condescendência. “A comunicação deve ser adaptada à idade e à maturidade emocional do jovem. Mostrar interesse genuíno pelo que eles dizem fortalece o vínculo e promove a educação emocional, pois ensina a nomear sentimentos, lidar com frustrações e desenvolver resiliência”, ressalta a especialista.
Comunicação não verbal
O corpo fala é o título de um livro que foi febre no começo dos anos 2000. E, embora muitos aspectos tratados na obra sejam questionados atualmente, é verdade que a linguagem não verbal diz muito nas relações interpessoais. Gestos, expressões faciais e tom de voz influenciam diretamente a interpretação da mensagem. Um simples sorriso ou um olhar atento podem transmitir mais segurança e acolhimento do que palavras mal colocadas. Crianças e adolescentes percebem rapidamente quando há coerência entre fala e comportamento, e essa coerência é fundamental para que a conversa seja produtiva.
Kerscher também indica algumas práticas simples para exercitar e melhorar a comunicação com crianças e jovens. “Reservar momentos exclusivos para conversar, evitar julgamentos imediatos, fazer perguntas abertas, escutar com atenção e validar emoções são ações que contribuem para diálogos mais afetuosos e com resultados mais significativos para todos os interlocutores”, aconselha.